Desde que tivemos a infelicidade de ficar sem TV a cabo em casa, viramos refém da TV Diário (afiliada local da Rede Globo), único canal que pegava aqui. O prédio até que tem uma antena externa mas o Jú, num dia de inusual inspiração doméstica, decidiu tirar o cachimbinho pra colocar no quarto, arrebentando todos os fios e deixando a antena inutilizada para todo o sempre, amém. Pois bem, a nossa antena pós cabo era daquelas internas pretinhas, sacam?, aquelas que tem um lance redondo sobre um suporte (como se fosse possível, realmente, um adereço arredondado de plástico servir como receptor de sinal) e que, após meses de uso sob mãos pesadas, acabou se reduzindo a um pedaço de fio metálico mal descascado que enfiávamos no buraquinho de antena da TV. Acho, de verdade, que se parassem de colocar aquele plástico redondo nas antenas internas e desistissem da ideia de tentar fazê-las parecerem mini parabólicas (só falta escreverem nela: directivi), as mesmas poderiam ter uma redução no custo de produção na margem de, deixa pra lá. Não sou a pessoa mais indicada para sugestões econômicas, e já vou explicar por quê. Sábado passado, pelintrando pelas prateleiras de ferramentas de uma lojinha de 1,99, me deparo com a maior promoção já vista nos últimos 63 dias: uma antena, simples, sem fantasias laboriosas, adereços inúteis e quetais; uma antena simples, um compridinho pra enfiar na TV, um suportezinho plástico pequeno pras antenas propriamente ditas, um cachimbo e nada mais, tudo isso pela bagatela de R$3,50. Fiquei super feliz e comprei na mesma hora, sem maiores questionamentos. Entre dois tipos de embalagens diferentes, sem olhar direito para o conteúdo, escolhi a de pacotinho rosa e fiquei ainda mais feliz quando, ao passar no caixa, descobri que aquela custava TRÊS reais. Há… Chegando em casa pedi para o Jú encaixar o cachimbinho nos fios, ao que descobrimos que a antena não vinha com cachimbinho. Ou seja, não tinha onde enfiar os fios (não pensem besteira, que eu sei que pensaram, quero uma audiência sadia por aqui). Entendido o porquê do súbito desconto de 50 centavos, guardei a antena no saquinho e tive a capacidade de, no outro dia, domingo, descer até o centro da cidade para trocar a caceta da antena. A chinesa olhou, olhou, perguntou por que eu queria trocar a antena. Expliquei que, sem o cachimbo, a antena não servia de nada. Ela não entendeu o que era cachimbo. Expliquei que era aquela caixinha de conexão, que não falávamos do Popeye, que era necessária, imprescindível mesmo. Nada. A moça de olhinhos pequenos se limitava a balançar a cabeça de um lado para outro em negativa. Pedi então para o Marcelo (que se submeteu a me acompanhar na empreitada) a pegar lá no fundo da loja uma antena como a que eu tinha comprado e a outra, de embalagem azul, que vinha com o cachimbinho. Ele trouxe, expliquei para a moça, de novo, o que era que estava faltando na antena e que não poderia faltar, para ela trocar, por favor, que eu pagava a diferença e tudo estaria resolvido. Ela reclamou que o saquinho estava rasgado (85% dos saquinhos estavam rasgados, uma vez que, possivelmente de qualidade duvidosa e, tendo como conteúdo duas varetas metálicas pontudas, eles se partiam na costura apenas com um olhar mais demorado). Argumentei, pedi, já comecei a me irritar até que, possivelmente por não me estar entendendo e querendo se ver, logo, livre de mim, ela cobrou os centavos faltantes e me deixou levar a antena completa. Em casa, eu mesma liguei o fio no parafusinho e passei o resto do dia me gabando do fato de eu ter um faro infalível para encontrar ofertas, de como é possível que cobrem dez reais por uma coisa que pode ser facilmente comprada por 3,50, questionando a todos como pudemos sobreviver por tanto tempo sem uma antena em casa, não fosse eu, a encontradeira superior dos preços baixos, encontrar aquela pequena maravilha tecnológica por módicas moedinhas. Nos dois dias subsequentes, cada vez que alguém mudava de canal e o mesmo sintonizava, tinha de ouvir a minha autoexaltação ególatra de como eu tinha encontrado a barará barará barará. No começo do 3º dia, ao fazer o breve movimento de descer a vareta metálica, a caixinha de plástico que servia de suporte se partiu. Marcelo me deu uma bronca, como eu poderia ter feito aquilo, e tals. Enquanto tentava explicar para ele que o movimento que gerou aquele inconveniente não havia sido, de forma alguma, brusco, quebrou-se a outra parte. Agora danou-se. Soltei um: fique calmo, eu vou arrumar e, munida de um durex daqueles grossos de lacrar caixas, envolvi as varetas com os pedaços quebrados do suporte, fazendo movimentos calculados para direita, esquerda e meio, repetindo-os de 3 a 4 vezes. Estava colado, mas agora as varetas nem subiam nem desciam mais, uma vez que estavam grudadas no durex. O Marcelo não gostou nada disso, mas o Jú nem percebeu. No outro dia, passando ao lado da TV e das antenas que, agora, depois do acidente ficam feito prostitutas velhas com as pernas abertas o dia inteiro, esbarrei numa das pontas e a mesma entortou. Hoje, sexta-feira, é o quinto dia, o dia em que relato esses contratempos tantos. Por enquanto, ainda não aconteceu nada (mesmo porque, a televisão está desligada) e eu aproveito a chance de ter chamado a atenção de todos vocês com este triste relato para aconselhá-los: da próxima vez que tiverem $3,50 e estiverem precisando de uma antena, esperem juntar os outros $6,50 e comprem uma directivi. Também não é o que promete. Mas garanto que dura mais do que 4 dias.
agosto 5, 2010
Este é o relato mais emocionante, coeso, claro e sensível que jamais li sobre o escritor e o escrever, feito por alguém que não é, tecnicamente, da literatura (embora, não apenas no prólogo, mas como em toda a obra, José Castello faça, simplesmente, poesia).
“Desde que comecei a entrevistar escritores, há pelo menos duas décadas, sempre me impressionei com seu desamparo, com o abandono do homem massacrado pelas leituras que se aderem à obra, e me interessei mais por essas zonas sombrias em que eles travam suas batalhas, pelas pequenas torturas impostas pelo mercado e pela crítica, pelas exigências da vaidade, pela loucura enfim que toma conta de um homem quando ele se posta diante do papel em branco, do que pelas imagens sofisticadas e cheias de glamour que a mídia constrói a seu respeito. A julgar por essa imagem pública, escritores são indivíduos de ânimo firme, sempre cheios de coisas a dizer, que vivem uma rotina espetacular, habitando um mundo restrito, dedicado ao transe, às homenagens e à aventura. Mas escrever inclui farta dose de entrega, de abandono, de devassamento, e impõe um combate contínuo contra o orgulho, o desespero e a solidão, destino que faz dos escritores, quase sempre, seres suscetíveis e irrequietos, que carregam sonhos além de suas forças.
Conheci, é verdade, escritores maduros, capazes de defender seus projetos com desembaraço e de esquadrinhar as próprias obras com a destreza de cirurgiões. Mas conheci também escritores tímidos e envergonhados, que gastam suas melhores energias se escondendo do mundo e tentando apenas se defender, extraviados num cotidiano nem um pouco confortável, como se a literatura fosse, na verdade, um cárcere. Ao contrário do que sua imagem pública nos faz crer, escritores habitam em geral um mundo em ruínas − e é para sobreviver em meio a escombros que, sem outro amparo, eles se põem a escrever.
Conheci escritores vaidosos, neuróticos, encabulados, pedantes, arrogantes, afetuosos, tagarelas, brilhantes, mas escondida em todos esses gêneros, camuflada atrás de todas essas máscaras, entrevi sempre a ponta de um abandono, a saliência de uma sombra que, dissimulada pela retórica e pelo sucesso, ainda assim estava ali todo o tempo, a latejar. Meu interesse pela literatura aumentou quando descobri homens de carne e osso guardados dentro das narrativas e dos poemas que mais gosto de ler, experiência que, mais tarde, encontrei expressa na sentença de Emerson: “Talento apenas não faz um escritor. Deve haver um homem por trás do livro.” Sempre me interessei mais por esses homens e mulheres que estão ocultos nos livros do que por aqueles sujeitos, resolvidos e às vezes até um pouco ridículos, que pontificam na mídia em seu lugar. Atrás daquelas páginas, há sempre um impulso irreversível, uma sina, talvez uma condenação, que é na verdade o que leva um escritor a escrever.
Então, em vez de dar atenção ao sucesso e à glória, preferi me fixar nos conflitos íntimos, nas decepções, nos sentimentos difíceis, nos horrores − a zona de penumbra, enfim, que move o fazer literário; região de espíritos atormentados, dilemas inomináveis e temperamentos frágeis, que transformo agora na matéria-prima deste pequeno inventário. Não tomo essa decisão por morbidez, ou porque deseje, numa inversão de valores, menosprezar os escritores, até porque os tenho em alta conta; mas sim porque, num tempo em que a literatura é tratada ora como objeto de exibicionismo intelectual, ora como simples mercadoria, mas quase sempre com frieza, o melhor a fazer é retornar aos bastidores, àquelas noites intermináveis em que homens e mulheres, movidos por forças que não sabem dominar e com o coração em frangalhos, se põem a escrever.”
(José Castello. Inventário das sombras. Rio de Janeiro: Record, 1999.)
Discussão de relação agosto 2, 2010
- Quer dizer, então, que você é desse tipo…
- Que tipo?
- Desse tipo!
- Como assim??
- Assim, tipo, o tipo de gente que faz coisas desse tipo.
- Que coisas?
- Ora, não desconverse!
- Mas estamos falando sobre o quê?
- Ah, agora vai dar uma de que não sabe…
- Mas eu realmente não sei!!!
- Gente como você sempre age dessa forma, é incrível.
- Gente como eu, como??
- Assim, que se faz de desentendida de tudo.
- Mas eu não estou entendendo nada, mesmo…
- Ah não, claro, óbvio que não. Você nunca entende nada.
- Aonde é que você quer chegar com essa história?
- Não muda de assunto, não!!!!
- Eu estou mudando de assunto???
- Claro, como sempre faz quando lhe convém.
- Mas, afinal de contas, do que é que você está falando???????
- Tá vendo, já mudou de assunto de novo.




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