Pois Valentina teve bebês, minha bebézinha, tão criança ainda. Após fugir do apartamento e viver momentos de luxúria e esbórnia pela época do carnaval, seus pequenos herdeiros nasceram na madrugada do dia 03 de maio.
Deu cria na perna do Marcelo, destarte todos os preparativos que tomamos o cuidado de pensar na condição de avós e tio de primeira ninhada. Quatro gatinhos horrorosos, encardidos de vermelho, pequeníssimos e fazendo um miadinho muito miúdo e fino.
Infelizmente, como contarei no dia em que me passe o trauma, Kolinos, o maior de todos, o mais garboso e esperto, veio a óbito numa triste tarde, duas semanas depois.
Ficaram Colgate, Max White e Blanc, minha mini-Valentina, com olheiras como as da mãe. Os três branco e rosa, com olhos tão tão estranhamente coloridos quanto o lar em que nasceram: dois verdes; um azul e outro verde; um verde e outro azul.
Valentina, que era uma criança total e completa, ao contrário de todas as expectativas tem se mostrado uma mãe extremosa e dedicada com aquelas bolinhas peludas que, do fim de semana pra cá, passaram a explorar o ambiente-apartamento, e vivem pelos pés da gente, principalmente atrás de minhas pantufas.
Mas quero falar mais de Valentina. Do como Amo aquela manhosa querida que não pensa duas vezes em se esfregar nas minhas mãos às cinco da manhã pra pedir carinho no nariz. Ou que limpe o banheiro dela, que sempre deve estar imaculado, caso contrário, ela não pode, obviamente, fazer uso do mesmo. Ela, que pisa o 1,93m do Jú sem a menor cerimônia, do meio do sono mais reconfortante, para pedir gostoso .
Valentina chegou em casa num dia em que eu e Marcelo voltávamos de uma festa junina em Sampa, na faculdade onde trabalhava. Dia 09 de junho do ano passado, aquela coisinha linda e minúscula sendo enxotada da portaria do prédio vizinho. Peguei-a no colo só um pouquinho, só pra ver como era. A primeira mentira cercando sua chegada, mentida pra mim mesma. Depois a subimos pro apartamento e eu disse pro Jú que a tinha ganho no bingo da festa. A segunda mentira seguida da promessa mentirosa de que ficaria com ela só um pouquinho, só pra dar um leitinho e depois já ia descê-la, aquela coisinha com um coração que pulava tanto que parecia um tambor nas mãos de Juá. Ele, fingindo braveza, disse que não queria nem saber, que ela era responsabilidade minha e do Marcelo, barará, barará, não queria nem olhar e, pronto, meia hora depois já tinha preparado banheiro e cama. É em casa, de longe, o que dá mais corda pr’as sem-vergonhices dela.
Valentina, Valentina, minha gatinha com TOC, obsessiva por água desde o dia em que, ainda bebê, viu uma bacia cheia no banheiro e ficou lá, horas, extasiada, dando voltas na borda e patadinhas na água fria; nós lá, feito bobos, assistindo… Valentina que dorme na pia do lavabo e cuida do meu asseio tão bem quanto do dela: todo dia, depois do meu banho, ela vem me “lember” e tirar as minhas pulgas com mordiscadinhas que quase me matam de cócegas e alegria. Marcelo também, desde que ela chegou, nunca mais teve pulgas…
Um dia depois de chegar em casa, ainda com a coisa no ar de que ela só tomaria mais um leitinho porque, todos sabem, é proibido ter animais no apartamento e a gente nunca teria tempo de cuidar, um dia depois eu fiquei muito, muito triste, e chorei. Ela, que dormia sobre o meu peito, o tempo todo sobre o meu peito ou sob os meus cabelos, ela subiu em mim e lembeu os meus olhos, as lágrimas que eu estava chorando. Daquele momento em diante eu sou a humana dela.
Valentina, Valentina, minha gatinha, minha coisinha Amada e branca, nossa menininha bagunceira e derrubadeira de quinquilharias… não sei mais ser sem você.




Comentários